O Futuro da Energia

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Energia eólica, um caminho


Embora descendente de portugueses, meu pai, como bom brasileiro, gostava de contar piadas ironizando nossos colonizadores. Entretanto, nunca acreditou na alardeada burrice lusitana. Da mesma forma, sempre admirei a competência dos colegas engenheiros lusos. Assim, logo que me formei na Escola Nacional de Engenharia, no Rio, em dezembro de 1960, tratei de embarcar para Lisboa, em 3 de janeiro de 1961, rumo ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil, o famoso LNEC.

Tive, então, a oportunidade de conhecer um pouco da tecnologia portuguesa em barragens, especialmente de concreto, e na engenharia hidráulica em geral. Não por acaso, é português o projeto da barragem em abóboda delgada de concreto da Usina de Funil, no Rio Paraíba do Sul, perto de Resende (RJ). Também o alargamento da praia de Copacabana, realizado nos anos 60 (governo Lacerda), contou com a supervisão do estimado professor Lajinha, do LNEC.

Essas antigas lembranças vieram-me à mente quando tomei conhecimento da notável expansão da geração de energia eólica ocorrida em Portugal, após 2008. Hoje, 36% da eletricidade consumida é proveniente dos ventos ou diretamente do sol. Assim, houve significativa redução na dependência da importação de combustíveis fósseis, com evidentes vantagens econômicas e ambientais.

Atualmente, são europeus os países líderes na participação eólica em suas matrizes energéticas: Dinamarca, com 20%; Portugal, 15%; e Espanha, alcançando pouco mais de 14%. O segundo lugar lusitano foi obtido em 2009, graças a um incremento de 31,6% em relação a 2008. Uma das estratégias utilizadas para o aumento da geração eólica foi a promoção do uso privado, incentivando o uso de pequenos aerogeradores.

A situação brasileira é bastante diferente, pois temos mais de 45% da energia (como um todo) oriunda de fontes renováveis. Na área de eletricidade, temos posição invejável com a predominância absoluta da energia hidráulica. Porém, são enormes os desafios. Não há desenvolvimento econômico sem aumento do consumo de energia. Se a demanda por eletricidade crescer mais rapidamente que a capacidade de ofertar energia ocorrerá desequilíbrio que precisa ser evitado.

O apagão de 2001 mostrou-nos a necessidade imperiosa da diversificação das fontes energéticas. É de fundamental importância o investimento em diferentes fontes de geração para que o Brasil possa se desenvolver de forma sustentável. Em termos mundiais, o uso de petróleo continua a crescer em decorrência do padrão de consumo ainda predominante nos Estados Unidos e da explosão desenvolvimentista na China e na Índia.

O Brasil ocupa posição de liderança na tecnologia de fabricação do etanol e na sua produção industrial.

Graças aos avanços tecnológicos e à evolução do processo produtivo, o álcool tornou-se competitivo. Embora sejam grandes as dificuldades para o licenciamento ambiental, a energia hidrelétrica ainda é primordial ao atendimento do sistema elétrico brasileiro. Assim, temos o desafio de construir Belo Monte e as usinas do Rio Madeira — Jirau e Santo Antônio, e mais outros aproveitamentos na Amazônia.

Além disso, há a necessidade de investimento em linhas de transmissão, como o linhão Tucuruí–Manaus e a LT Porto Velho–Manaus, em corrente contínua. Apesar de 70% do seu território não ter sido prospectado, o Brasil possui reserva de 310 mil toneladas de urânio (sexta maior do mundo). Por isso, a construção da usina nuclear Angra 3 e de outra no Nordeste é altamente recomendável com o objetivo de diversificar a base da
curva de carga do sistema. Com referência à energia complementar, estamos também em condições de vencer o desafio de incrementar o uso de fontes renováveis, pois temos as dádivas do sol tropical, ventos abundantes e terras férteis, que favorecem o uso do álcool, bagaço de cana, carvão vegetal e até lenha, de forma sustentável.

Certamente teremos aumento da utilização da energia solar de forma direta para aquecimento de água. Mas é a energia eólica que se apresenta com grande potencial de crescimento, desde que vencido o desafio de reduzir os custos das usinas, como ocorreu no setor sucroalcooleiro. No caso da geração eólica, os equipamentos ainda são muito caros, o que dificulta sua competitividade. No entanto, investimentos para incentivar o uso maior dos ventos na nossa matriz energética podem vir a ser rentáveis futuramente, muito
embora a participação maior ou menor de uma fonte não seja apenas um ato de vontade política. No momento presente, o exemplo de Portugal merece ser estudado, pois mais uma vez a experiência dos portugueses pode vir a ser útil ao Brasil.

Carlos Roberto Moura é Engenheiro civil e presidente do Cenb (Clube de Engenharia de Brasília)

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