O Futuro da Energia

O Futuro da Energia

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"Energia nuclear ainda não é segura"


Diante da crescente demanda por energia elétrica e, consequentemente, a busca por fontes de energias renováveis, grande desafio colocado para todas as nações, não somente pelos sinais de esgotamento de diversos recursos naturais, mas também pela questão da poluição do meio ambiente, a energia nuclear surge como salvadora das pátrias. Em entrevista concedida ao Estado de Minas, o engenheiro nuclear pela Universidade Federal de Minas Gerais, Omar Campos Ferreira aposentado do Departamento de Engenharia Nuclear da UFMG e atualmente professor no curso de engenharia de energia da PUC Minas, fala dos desafios da busca por outras fontes de energia no Brasil, das opções que o país tem e da perspectiva futura da energia nuclear no cenário mundial. Ex-diretor do Instituto de Pesquisa de Radioativos, hoje Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN), Campos Ferreira aposta no investimento do bagaço da cana de açúcar no país para gerar eletricidade e acredita que a energia nuclear terá seu ápice no século 22. "Ela vai ser imprescindível, mas reservaria esforços durante o correr dos próximos 90 anos em pesquisa dessa exigente e complexa tecnologia", diz.

O sr. pode traçar um cenário atual da matriz energética mundial e brasileira, levando em consideração as questões climáticas e a escassez de recursos naturais?

Prefiro me referir ao planejamento energético nacional, até 2030, feito pela Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), órgão vinculado ao Ministério das Minas e energia e que, portanto, tem autoridade sobre o assunto. A expectativa é que, com menores taxas de crescimento da população brasileira, haja um arrefecimento na demanda. De 1970 a 2000, a economia cresceu 4,2% e tivemos aumento na demanda por energia total de 5%. A energia elétrica cresce mais depressa, pois é mais controlável. No cenário para 2030, temos quatro situações, de demanda alta, moderada, média e um cenário pessimista, digamos assim. De 2000 a 2030, teremos percentuais de 4% para demanda alta, 3,5% na tendencial, 3% na média e, no mais cauteloso, 2,6%/ao ano. E quando falamos de energia nuclear, estamos pensando, pelo menos no momento, em geração de eletricidade. Já o cenário da EPE para eletricidade em 2030 apresenta situação diferente: 4,6% ao ano no cenário alto, 4% no tendencial, 3,7% no médio e, no cauteloso, 3,3%. A demanda pela eletricidade é um pouco maior. Atualmente, a demanda brasileira gira em torno de 450 TeraWatt /hora (1 TeraWatt equivale a 1 milhão de MegaWatts). Então, passaríamos, nesses anos, de uma demanda média de 450TW/h para 940TW/h, mais do que o dobro, mesmo com a população crescendo menos.

Esse aumento seria, então, justificado somente pelo desenvolvimento econômico do país?

Apelando para princípios mais fundamentais, esse aumento seria uma forma de controle de degradação ambiental, uma vez que a eletricidade é uma forma de energia mais limpa e mais fácil de controlar. Mas para atender a crescente demanda por energia elétrica, o Brasil tem recursos bem variados. Exploramos até agora apenas 1/4 do potencial hídrico. À medida que se vai explorando o potencial, a resistência à exploração cresce também, especialmente por causa de deslocamentos das populações pelas grandes barragens, pela proximidade com áreas de proteção ambiental ou de populações indígenas. Além da disponibilidade de potencial hídrico de grandes hidrelétricas, temos potencial expressivo das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs); do uso da biomassa, especialmente o bagaço da cana; no litoral, potencial eólico e de energia solar que poucos países no mundo têm.

E qual seria a vantagem da energia nuclear frente a essas outras fontes?

Primeiramente, quero falar do bagaço da cana. A produção de álcool é crescente no Brasil. Na década de 1990 foram produzidos 10 milhões de metros cúbicos/ano de álcool e, no ano passado, 20 milhões. A procura por álcool da cana está crescendo no mercado mundial – vários países interessados em misturar álcool na gasolina –, com isso, a exportação brasileira cresceu muito rapidamente na última década. E a medida que você aumenta a produção para exportação, aumenta o percentual de bagaço gerado para geração de eletricidade. O bagaço, há 20 anos, era usado para energia das próprias usinas de álcool, que foram melhorando as máquinas e diminuindo o desperdício. Isso numa época em que não precisávamos de fontes complementares de energia. O interessante é que o auge da safra da cana coincide com a pouco afluência dos rios. Então, uma pode trabalhar com a outra.

E onde entra a energia nuclear, então?

A perspectiva da energia nuclear, acho eu, é longa. Acredito ser possível suprir o crescimento da demanda de energia até 2070, com essas outras fontes que mencionei – hidrelétrica, bagaço da cana, éolica e solar. É possível que no próximo século a energia nuclear desempenhe papel importantíssimo na economia brasileira. E como está em evolução, pois a tecnologia atual não é suficiente para atender a demanda de energia elétrica mundial, o Brasil deve ter um programa de energia nuclear que absorva tecnologias.

Então o sr. considera o bagaço da cana para gerar eletricidade mais interessante que a energia nuclear?

No estágio atual, acredito que a usina do bagaço seja socialmente mais importante para o Brasil, pois cria mais empregos. Para ter uma ideia, na área de petróleo, o investimento de R$ 1 milhão cria 0,7 posto de trabalho; na área de geração de eletricidade, um posto; no setor de álcool e cana, 15; no de veículos e autopeças, 25 empregos; e no setor de couro e calçados, 30 postos de trabalho. Por isso, acredito que neste momento, seja mais importante para o Brasil explorar a cana sem se descuidar da energia nuclear. Cem anos para um país passam muito rápido. Nós certamente precisaremos basicamente da nuclear no século futuro.

Se a energia nuclear vai ter papel tão importante nas economias, como vai se sobressair? No Brasil, temos Angra 1 e 2 em funcionamento, e Angra 3 em projeto. Como o sr. vê o futuro?

A demanda por energia em função do Produto Interno Bruto (PIB) é de 2 toneladas equivalentes de petróleo/habitante (Tep), para um país com US$ 10 mil de renda per capita; 4,5Tep/habitante para renda de US$ 20 mil; 6Tep/habitante para renda de US$ 30 mil. A energia é, então, fator de produção tão importante como os demais, como o capital, o trabalho, a matéria prima etc. E vai crescer a demanda de energia, pois projeta-se que o Brasil venha a ser a quinta ou sexta potência mundial e, se assim for, teremos demanda da ordem dos países desenvolvidos, algo como 5Tep/ habitante. A relação entre as taxas do PIB e da eletricidade é de um por um. Cada 1% de aumento do PIB, acarreta 1% do aumento de eletricidade. As usinas de Angra 1 e 2 funcionam bem, mantêm fator de capacidade de 80 a 85% e contribuem com 2% da produção de eletricidade nacional. E a medida que a demanda vai crescendo, o Brasil se vê obrigado a recorrer a formas complementares de produção de energia.

Aí entra a nuclear.

Sim. O Brasil tem a sexta maior reserva de urânio do mundo. Com isso, poderíamos instalar de 25 a 30 centrais do porte de 1 mil MW. Mas com a tecnologia atual, a energia nuclear no mundo não vai muito longe. Poderia manter, no máximo, atividade para uns 60 anos, porque usa mal o urânio. Usa mal porque o urânio natural tem 0,7% de urânio físsil (o 235), que sofre fissão; os 99% restantes são urânio 238, que não é físsil, mas que pode ser transformado em físsil numa reação nuclear. Colocado nesse processo, ele gera plutônio, que é físsil, gera energia. O nível de tecnologia necessário para extrair quantidade razoável do urânio 238 requer enorme esforço de desenvolvimento que vem sendo frustrado nas últimas décadas. Uma usina nuclear custa US$ 2 mil por KW, uma hidrelétrica, US$ 1,2 mil.

Há pesquisas sendo desenvolvidas para melhorar o processo de enriquecimento do urânio no mundo, para fins pacíficos? Porque a sensação que se tem é que a população tem receio e medo em relação a energia nuclear, de que ela não é segura.

Há estudos sim, no Japão, Rússia, Comunidade Europeia, China, Estados Unidos. Essa é a saída. Não teremos muitas alternativas a não ser a energia nuclear, que, caso os esforços necessários sejam feitos, será capaz de satisfazer a demanda da energia elétrica cerca de 50 vezes mais, coisa para atender a necessidade mundial por 1.500 anos. À medida que se escasseiam os recursos alternativos, essa se tornará a única opção. Sobre o medo da população, ele é justificável. Os produtos de fissão são radioativos e podem causar várias moléstias, principalmente o câncer. A demonstração de Chernobyl (acidente ocorrido na Ucrânia, em 1986, em função do superaquecimento de um reator, que espalhou radioatividade no Leste Europeu) acabou diminuindo o interesse pela energia nuclear como geradora de eletricidade. Mas a humanidade caminha nesse sentido: ou encara o perigo ou se extingue. Os acidentes com barragens são mais raros e eles têm efeito imediato. Os nucleares, por sua vez, têm efeito devastador e os materiais que saem do reator levam mais de mil anos para deixar de ser radioativos. Não a considero segura, definitivamente. Basta ver que para liquidar um passivo nuclear, são 50 mil anos, mantendo vigilância sobre o material rejeitado durante esse tempo. A um custo impressionante.

A situação é contraditória: o sr. diz que a energia nuclear será imprescindível no futuro, mas ela não é segura o suficiente? O que o Brasil precisa para se desenvolver melhor nessa área?

É uma contradição. Ou você usa a nuclear ou não usa nada. E não usar nada, significa morrer. É complicado, complicadíssimo. Não acho que temos excelência profissional ainda. Precisamos nos familiarizar com reatores da nova geração e reservar esforços de pesquisas durante o correr deste século. A tecnologia é muito exigente. Precisamos acompanhar com pesquisa essa tecnologia avançada. Acho que não devemos investir pesadamente na nuclear agora, senão deixaríamos de investir na lavoura e nas outras fontes de energia. Tínhamos um programa nuclear na década de 1970, quando foram formadas mais de 1 mil pessoas na área. O projeto contemplava a transferência de tecnologia de enriquecimento de urânio da Alemanha para o Brasil, mas os americanos barraram o acordo. O crescimento da demanda por energia não acompanhou a estimativa e o programa já estava capenga. Foram 30 anos de paralisação. Muitos dos formados naquela época se aposentaram. Então, você tem que recomeçar todo um projeto. Há uso da energia nuclear na medicina, na agricultura, mas uma sensação latente… Essas áreas são importantes, mas filigranas perto da potencialidade da eletricidade. Aí sim, teríamos um uso maciço da energia nuclear.

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