
O economista alagoano Ricardo Simões seguiu carreira na indústria petroquímica durante a maior parte da vida. Ele lembra que há dez anos trabalhava em uma indústria voltada para a energia elétrica, gás natural e óleo combustível e passou a ser o executivo responsável pela área de energia, tendo migrado posteriormente para a área de concessão de hidroelétricas e há apenas cerca de dois anos começou a se envolver com projetos eólicos. Nesta entrevista, Simões, que assumiu a presidência da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) no dia 11 de maio deste ano, dá um panorama de como é atualmente o setor de geração de energia eólica no país, deixando claro que para seu desenvolvimento é preciso que o Governo Federal realize leilões sucessivos por um período mínimo de 10 anos.
Por que o senhor optou em migrar da indústria petroquímica para os projetos eólicos?
Isso ocorreu porque percebi que hoje existe uma tendência mundial por energias renováveis, com o Brasil apresentando oportunidades gigantescas, principalmente para as próximas gerações, tanto na área hidráulica, quanto na de bioenergia e, mais ainda, na área eólica. O país pode garantir seu crescimento com energia farta e limpa, calcando suas políticas nas matrizes eólica, de bioenergia e hidráulica.
O setor privado tem aumentado o interesse e a quantidade de investimentos na geração de energia eólica?
Sem dúvida. Em 2009, o poder concedente do Governo Federal realizou um leilão de reserva de energia eólica, no qual foram inscritos 13 Gigawatts (GW) de projetos. Ou seja, foram inscritos o equivalente a uma usina de Itaipu. Este ano haverá um novo leilão de reserva, durante o mês de agosto, para o qual foram inscritos 10 GW. Isso é uma manifestação clara de que o setor privado brasileiro deseja investir não só em energia, mas em energia renovável.
Os investidores são brasileiros, em sua maioria?
Existem investidores nacionais e estrangeiros. Estes, constituídos em empresas com filiais no Brasil.
Quais são os setores que podem tirar mais proveito da energia eólica, atualmente?
Dos setores ligados a essa atividade, podemos destacar o de fabricação de geradores, de componentes elétricos, metalurgia, fibra de vidro, a própria indústria de vidros e a de resina, com a fabricação das pás das torres eólicas. Ou seja, é fundamental que no Brasil sejam realizados leilões sucessivos, para que essa indústria se consolide e que sejam montadas cadeias de fornecimento, de maneira competitiva. Vemos que essa energia só poderá se tornar mais competitiva, se a indústria for dotada de escala. Então, se forem feitos leilões anuais de 2 mil Megawatts durante um período longo de tempo, será dada continuidade a formação da cadeia de produção desse tipo de energia. Outra coisa que estamos buscando é a desoneração da cadeia, através do projeto Renovento, que está em apreciação pelo Governo Federal, no Ministério da Fazenda.
Qual o potencial do Rio Grande do Norte, com relação à energia eólica?
O Rio Grande do Norte está puxando a fila, no país. Como exemplo disso temos o leilão do ano passado, no qual foram comprados 1,8 mil MW e o estado vendeu 650 MW. No leilão deste ano a situação também chama a atenção para o RN, pois foram inscritos 10 mil MW e apenas o RN inscreveu 3,8 mil MW, que corresponde à maior quantidade de projetos de um estado. Dessa forma, podemos dizer que o estado tem uma situação absolutamente diferenciada, que vai ser capaz de gerar empregos de qualidade e oportunidades para o empresariado local, fomentando a prestação de serviços e contribuindo para o fortalecimento de uma cadeia, formada por indústrias de manutenção, de alimentação e de toda uma gama de agentes indiretos. Também é interessante destacar a qualidade dos investidores que estão sendo atraídos pelo estado, como a CPFL, Dobrevê e Bioenergy, que é consorciada com Furnas e Eletronorte. Ou seja, investidores de grande porte no país estão vindo para o RN, sendo empresas que conhecem o segmento. Isso quer dizer que, além da grande quantidade de projetos, o estado está pronto para investir no setor eólico, tendo inclusive participação ativa na Abeeólica, através de inúmeros associados, bem como da Federação das Indústrias do RN (Fiern).
Atualmente, quais são as principais dificuldades encontradas pelo setor?
As principais barreiras que enfrentamos são os impostos que oneram os investimentos. Eu considero esse como o grande entrave que precisamos remover, para a definitiva consolidação da indústria de energia eólica
no Brasil.
O primeiro leilão exclusivo de energia eólica, realizado em dezembro de 2009, contratou 1.805 Megawatts nas regiões Sul e Nordeste do país. Como o senhor avalia o resultado desse leilão?
Foi uma completa mudança de paradigma. Para que se tenha uma idéia, hoje a capacidade instalada de energia eólica no Brasil é de 700 MW, entre o final deste ano e início do próximo passaremos para 1,4 mil MW e já em 2012, como conseqüência do leilão, teremos 3,4 mil MW de capacidade de geração de energia eólica no país. Isso significa dizer que iremos quadruplicar a capacidade instalada. Mas isso não é muito e o que impressiona é que esse volume corresponde apenas a 2,5% da capacidade instalada no Brasil, de gerar energia.
O que é necessário para possibilitar o aumento na geração de energia eólica?
Leilões sucessivos, durante pelo menos 10 anos, de volumes exclusivos para a fonte eólica e superiores a 2 mil MW. Para o próximo leilão, que também será exclusivo para energia eólica, estamos esperando um mínimo de 2 mil MW de reserva, além de mais outro volume no leilão de fontes alternativas. Ambos estão programados para este ano. É importante que tenhamos volume de contratação, pois isso consolida a indústria, gera desenvolvimento e emprego qualificado. Podemos dizer que, para cada MW instalado, são 14 empregos gerados e, desa forma, um leilão de 1,8 MW deve ser responsável pela geração de cerca de 25 mil empregos no país todo.
Como está o andamento dos projetos que já foram aprovados?
Não posso falar por todos, mas certamente a maioria está em fase de engenharia de detalhamento e aprovação de carta consulta, para financiamento. São R$ 8,5 bilhões de investimentos nos próximos dois
anos, em conseqüência desse leilão.
Quando o funcionamento desses empreendimentos terá início?
No Rio Grande do Norte já existem empreendimentos de geração de energia eólica. Como exemplos, podemos citar o parque de Rio do Fogo, que funciona há cinco anos, tem o parque de Alegria 1 que está em fase de implantação e indo até a região de João Câmara podemos ver os projetos vencedores do leilão começando a serem postos em prática. Certamente, neste momento, está sendo feita a análise de solo na
região de João Câmara, que é uma grande bacia eólica. Na verdade, uma das melhores do Brasil. E quando o consumidor sentirá algum efeito prático desses investimentos?
À medida em que são feitos leilões exclusivos dessa fonte e a indústria vai se consolidando, aumentando a sua escala e se tornando mais competitiva, o consumidor terá a oportunidade de consumir uma energia renovável, que causa impactos ambientais baixíssimos e que, gradativamente, ficará mais acessível para o consumidor. Pelo fato de a geração eólica ser distribuída e estar na ponta do sistema, em locais muito remotos, vai trazer o benefício na qualidade de energia para o consumidor. Isso significa que além da questão renovável, teremos a qualidade do fornecimento da energia elétrica. Então, com a entrada da energia eólica no mercado, nos locais mais remotos haverá uma diminuição significativa nas quedas de tensão, apagões e situações desse tipo. É importante dizer, uma vez que o RN já tem experiência nisso, que a eólica é uma forma de geração socialmente justa.
De que maneira a geração de energia eólica pode ser considerada socialmente justa?
O gerador chega em um local, por exemplo, aqui no Rio Grande do Norte e arrenda a terra. Esse arrendamento já é um percentual de receita gerada. Outra coisa é que a energia eólica é completamente compatível com outras atividades econômicas, como a pecuária, agricultura e lazer. Então, as pessoas mantém as atividades dos sítios ou fazendas em pleno funcionamento, ao mesmo tempo em que há a produção de energia. Dessa forma, há a geração de renda não apenas no período da obra de implantação do parque, mas durante 20 ou 30 anos em que é pago um aluguel pela terra, diretamente ao proprietário, que recebe royalties tanto do investidor quanto do gerador eólico, ao mesmo tempo em que continua desenvolvendo a sua atividade prévia. A terra termina se valorizando, porque o proprietário passa a ter um fluxo de caixa de arrendamento garantido em contrato. Com isso, é gerada riqueza em comunidades, muitas vezes, carentes. Eu sou nordestino e nós conhecemos os nossos estados, que têm diversos municípios carentes, e a eólica pode ser gerada sem promover alagamentos, sem desalojar ninguém e com uma convivência harmônica.
E na conta de energia, haverá alguma diferença com a popularização da eólica?
Quanto mais fontes de energia houver, mais seguro será para o consumidor, uma vez que a energia cara é aquela que existe em pouca quantidade. Outro ponto é que nós temos o privilégio no Brasil de possuirmos recursos hidráulicos extraordinários e, assim, por muitos anos a nossa matriz continuará sendo predominantemente da forma que conhecemos hoje - com as hidroelétricas - e é bom que seja assim, porque essa é a mais competitiva de todas as fontes. Mas a eólica é irmã siamesa da energia hidráulica e absolutamente complementar a esta. Se prestarmos atenção, veremos que os ventos são mais fortes e mais constantes justamente quando não está chovendo, nos períodos em que os reservatórios de água estão secando. Podemos dizer que uma torre eólica em Ceará-Mirim é uma lâmina d’água no reservatório de Sobradinho, no sertão da Bahia, ou uma lâmina d’água no reservatório de Tucuruí, no Pará. O crescimento da oferta de energia, calcada em bases hidráulicas e eólicas, dada a complementaridade e contrasazonalidade, faz comque o Brasil tenha uma condição extremamente diferenciada e competitiva, em comparação com outros países e é isso que vai fazer com que o consumidor não seja onerado com tarifas mais altas.
O que podemos esperar para o futuro, no que diz respeito à geração de energia eólica?
Nós, do setor, estamos firmemente convencidos de que haverá, de agora em diante, leilões exclusivos para esse tipo de fonte. Essas iniciativas também deverão ser sucessivas, para que possam nos levar em 2019 a
termos um mínimo de 10% da capacidade de geração de energia instalada no Brasil a partir de eólica. Isso significa cerca de 20 mil MW instalados e operando no país, dentro de nove anos.
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