O Futuro da Energia

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domingo, 27 de junho de 2010

Eólica: o caro preço do vento

O Ceará, que tem os melhores ventos do mundo, perde para o Rio Grande do Norte a corrida pela geração de energia eólica. Por quê? Para Luiz Eduardo Barbosa, presidente da Bons Ventos, "é o preço que se paga pelo ineditismo". Mas isso vai mudar

A Espanha já produz 17 mil MW de energia eólica. O Brasil, com um litoral muito maior do que o espanhol, gera menos de 1 mil MW. Por quê?

Acho que a energia eólica no Brasil só passou a ter uma cara de realidade depois do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, o Proinfra. Antes, o que havia eram lutas isoladas. Aqui no Ceará, desde a década de 90, há um esforço no sentido de que o Governo do Estado disponha de um plano de energia privilegiando a eólica, demonstrando que temos um potencial de geração muito bom. O Proinfra ainda não está concluído, mas boa parte dos seus primeiros projetos está pronta e gerando energia. Hoje, as coisas andam bem: em dezembro do ano passado foi realizado o primeiro leilão de eólica, com 1.800 MW contrata dos, e no próximo mês de agosto haverá outro para o qual se apresentaram 425 projetos só de geração eólica, com potência de 11.214 MW. Estamos no início de implantação de um processo, enquanto a Espanha vem há muito tempo com grandes investimentos em eólica.

Mas há países que também começaram no mesmo tempo e estão adiantados, como a China e a Índia. Por quê?

É verdade. Hoje, a China já é a segunda potência em capacidade instalada no mundo, mas é bom lembrar que a escala chinesa é diferente da de todas as outras, sempre. E a Índia já é a quinta do mundo, porque também tem uma escala diferenciada. A Índia domina já 6% do mercado, algo em torno de 10 mil MW. Ela começou um dia desses e gera mais de 10 vezes o que o Brasil consegue gerar. Estamos em busca de uma modelagem própria para as características brasileiras.

O Brasil, então, atrasou a sua participação no mercado de energia eólica?

Não há duvida de que nós poderíamos ter começado bem antes, porque, se considerarmos que aqui no Ceará, por exemplo, já tínhamos um Atlas Eólico desde 2001, já tínhamos em operação o parque do Mucuripe, o parque do Porto das Dunas e o parque da Taíba, revelando a viabilidade da performance desses parques, estava então demonstrada a realidade do potencial cearense na geração da energia pela força dos ventos. Mas, do potencial à realidade, você tem de ter um programa que dê suporte à contratação dos investimentos que são feitos em geração.

A culpa seria do Governo Federal, que somente agora, devido à dificuldade de licenciamento de novas hidrelétricas, passou a conceder mais atenção à geração eólica?

O Governo Federal havia metido na cabeça o conceito de que a geração eólica tinha custo muito elevado. Foi o primeiro empecilho. Diante da política de modicidade tarifárica - que é correta, pois almeja o melhor para o usuário - deixou-se de lado a eólica nesse processo, optando-se por investir na termelétrica como energia complementar. Durante um bom tempo, o País veio investindo em termelétricas a óleo pesado, a diesel, a gás natural. Mas, desde que se fizeram, com o suporte da Associação Brasileira de Energia Eólica, vários estudos por especialistas do setor, com respeitabilidade comprovada e isentos do processo de contratação e de vendas, mas com credibilidade no mercado, os quais o próprio Governo utiliza também como consultores, ficou demonstrado, claramente, que se poderia ter uma geração de energia eólica de custo competitivo como energia complementar. A um custo melhor do que o da termelétrica, quando esta é solicitada a entrar em funcionamento. A isso foram acrescentados a dificuldade de licenciamento ambiental e o tempo de construção de hidrelétricas. Isso tudo junto resultou no leilão de dezembro de 2009, no qual o preço médio de R$ 148 - bem abaixo do teto de R$ 180 estabelecido pelo Governo - viabilizou tudo, incluindo o tempo de implantação e de geração, que é de 24 meses. A energia eólica é, hoje, uma vertente que tende a ser, como está sendo, apoiada pelo Governo, para garantir a oferta de energia em porcentual maior do que o previsto para o crescimento da economia.

Por que o Ceará enfrenta problemas para implementar parques eólicos?

Nós estamos, neste momento, pagando pelo ineditismo. Acho que, como é uma atividade nova que se inicia no Estado, há uma série de dúvidas por parte dos órgãos licenciadores, dos órgãos fiscalizadores, do Ministério Público e das próprias comunidades que estão no entorno do empreendimento, e isto gera alguma insegurança. Mas a energia eólica, no mundo, não é uma coisa nova. Pelo contrário, ela já está aí, consolidada, faz parte, com peso significativo, da matriz elétrica de cada um desses grandes países que apostaram nela. A impressão que eu tenho é que isso mudará, a partir de agora, com os novos empreendimentos - só no Ceará, via Proinfra, foram implantados e estão gerando energia 14 parques eólicos, algo em torno de 500 MW, ou seja, mais da metade do que é gerado no Brasil. No leilão de dezembro, foram contratados mais 21 projetos para o Ceará, com potência de 547 MW. E ainda vem aí o leilão de agosto. Assim, minha expectativa é de que, com esse conhecimento mais aprofundado sobre o assunto, haverá uma segurança maior de todos os atores que participam desse processo.

O Rio Grande do Norte tem levado vantagem sobre o Ceará na disputa por novos parques eólicos. Por quê?

Porque lá a curva de aprendizagem da cadeia que participa do processo de implantação desses parques teve uma assimilação mais receptiva e mais rápida do que aqui. No Rio Grande do Norte, os órgãos governamentais, os licenciadores, o próprio Ministério Público estadual e federal, ou seja, todas as instituições envolvidas no processo tiveram uma percepção positiva, e com isso o Rio Grande do Norte está levando vantagem, sem dúvida nenhuma, além de ter um potencial tão bom quanto o do Ceará.

Por que as indústrias de aerogeradores e equipamentos de geração eólica preferem Pernambuco para implantar-se?

Não tenho informações sobre as atratividades que são negociadas pelos investidores junto ao Governo de Pernambuco e ao complexo de Suape. Talvez eles tenham ofertado alguma vantagem competitiva que levaram para lá esses investimentos. Talvez eles sejam mais agressivos. De qualquer forma, causa estranheza porque o centro de geração de energia eólica do Nordeste está aqui no Ceará e no Rio Grande do Norte. Pernambuco está fora desse eixo.

Sobre tecnologia: por que o Brasil não usa aerogeradores de última geração, com torres de 100 metros de altura e pás de 60 metros de diâmetro?

Na realidade, tanto a altura da torre quanto o diâmetro do rotor não são apenas uma característica do fabricante, mas também resultado da condição do vento disponível no local. Nos parques eólicos da Bons Ventos em Aracati e na Taíba, nós utilizamos torres de 80 metros de altura e rotores com 44 metros de diâmetro. Os geradores e as pás foram fabricados pela empresa indiana Suzlon, enquanto as pás foram feitas por empresa nacional brasileira. Mas se chegar aqui alguém que fabrique torre de 100 metros e rotor de 60 metros de diâmetro e adequar o projeto dele às características do nosso vento, sem problema. Nosso vento é permanente, uniforme, sem bruscas variações, muito adequado à geração de energia.

Na Espanha, eu vi rotores com pás de titânio com 60 metros de diâmetro e torre de 100 metros de altura.

Mas a nossa condição de vento, aqui, é muito melhor do que a da Espanha, do que a Alemanha, da Dinamarca. Nosso fator de capacidade é de 40%, às vezes acima de 40%. O fator de capacidade é aquilo que você pode garantir, efetivamente, como fornecimento. Se você tem 100, você garante 40. Na Espanha, esse fator de capacidade é de 30-32%.

Está surgindo mais um empecilho para a geração eólica no Nordeste: a Associação de Desenvolvimento Imobiliário e Turístico (Adit Nordeste) quer restringir a instalação de torres eólicas no litoral, alegando que eles prejudicam os empreendimentos turísticos. É verdade?

É um ponto de vista de um setor importante, mas minha opinião pessoal é de que projetos de geração de energia eólica podem conviver perfeitamente com empreendimentos turísticos e imobiliários. Basta que haja um zoneamento da faixa litorânea, pois existe espaço para a convivência das duas atividades.

Algumas opiniões

Luiz Eduardo Barbosa
Engenheiro civil, presidente da Bons Ventos Geradora de Energia S/A

"Energia eólica no Brasil só passou a ter uma cara de realidade depois do Proinfra"

"Como é uma atividade nova que se inicia no Ceará, a energia eólica gera dúvidas"

"A condição de vento no Ceará é muito melhor do que na Espanha e na Alemanha"

De olho nos negócios
Os eólicos estão aqui

Já foi dito que a energia eólica é o maior presente da natureza à humanidade. Ela é, do ponto de vista ambiental, a mais limpa do mundo. E a mais silenciosa. Seu custo, pelo avanço da tecnologia, está caindo muito rapidamente, incentivando novos investimentos. Em 2009, a energia gerada pela força dos ventos acrescentou mais 33.312 MW à capacidade mundial instalada, que já passa dos 160 mil MW - um crescimento de 31,7%. A cadeia produtiva de energia eólica dá emprego hoje, no mundo, a 550 mil pessoas - são empregos qualificados, de bons salários. O Brasil, que gera hoje pouco menos de 1 mil MW, metade dos quais no Ceará, estará gerando, dentro de mais cinco anos, perto de 20 mil MW, se for mantido o calendário anual de leilões de energia do Governo Federal. Por causa desse crescimento, a energia eólica virou um grande negócio, que movimenta grandes interesses nacionais e estrangeiros. Terça-feira, 29, no Centro de Convenções de Fortaleza, será aberto o All About Energy, que reunirá aqui representantes de toda a cadeia produtiva mundial, que trocarão informações e experiências e tentarão fazer novos negócios. Dono dos melhores e mais constantes ventos do mundo, o Ceará tem futuro promissor no setor.

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